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Balanço do ano que passou e anúncio do ano que se inicia

Sexta-feira, 28.12.12

 

O fim de mais um ano é sempre uma época para fazer balanços: o que fizemos e o que ficou por fazer, o que poderíamos ter feito melhor, o que aprendemos com as experiências que vivemos e com as interacções humanas. 

É também a oportunidade para rever o filme do ano: as partes boas e as partes más, e ter a coragem de não saltar as más, de não as apagar da memória. Muito do que aprendemos surge com experiências que podemos considerar, numa primeira análise, como uma experiência para esquecer. Aconselho vivamente, pelo contrário,  a mantê-la na memória até aprender com a experiência.

 

Este ano trouxe-me de tudo um pouco: desafio aos neurónios, a sua melhor parte aliás, mas também carinho partilhado, amizades, risos, sonhos.

E aprendi imensa coisa: que as aparências iludem completamente, que as lideranças em cargos de topo em instituições, países, organizações europeias e internacionais, não estão à altura da sua enorme responsabilidade.

Também aprendi que ninguém nos diz a verdade sobre o que nos espera no ano que vem nem nos anos mais próximos, e que nos estão a arrastar para um cenário de baixos salários, exclusão da vida activa, emigração, ausência de qualidade de vida e baixas expectativas para uma maioria da população.

Aprendi ainda que os gestores políticos não têm de prestar contas pela alteração do seu programa, pela alteração das regras do jogo, pela ficção e pela propaganda com que iludem os cidadãos. Também os gestores financeiros nada têm a propor para melhorar o cenário, porque de nada podem ser responsabilizados. Só têm de esperar que, custe o que custar, os cidadãos aguentem a crise.

Digamos que foi um ano muito instrutivo.

 

Ainda dizem que o mundo não acabou... O mundo, tal como o conhecemos, a maioria de nós, acabou mesmo.

O mundo agora é dos que vivem noutra dimensão, onde não há consciência nem responsabilidade, onde não há qualquer contacto incómodo com a realidade, a pobreza, a fome, que chatice, isso é para pensar duas ou três vezes por ano, a generosidade dos portugueses...

O mundo agora é dos que decidem pelos demais, pela população de um país, de países, de um continente, qual o seu salário, qual o seu nível de vida, quais as expectativas a que têm direito, e por aí adiante.

O mundo que agora se impõe é o da cultura corporativa baseada no poder financeiro que domina o poder político, e a que têm de se subordinar a economia e a vida concreta dos cidadãos. E ainda nos falam de democracia cá e na Europa. Esse mundo ficou no papel, porque já nada se assemelha a uma democracia nem à tal comunidade coesa e solidária que se quis construir.

 

Para desejar a todos o início de um novo ano com a vitalidade e a coragem necessárias para enfrentar estes desafios, aqui vai uma perspectiva criativa da empatia, a base das interacções humanas equilibradas e saudáveis:

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:13

As vozes estruturantes: sociedade civil, Igreja e CDS. Só falta mesmo um Presidente

Sábado, 27.11.10

 

As vozes estruturantes são aquelas que promovem a coesão social, o sentimento de pertença a uma comunidade onde ninguém é excluído, e que estão atentas às necessidades dos mais desfavorecidos.

São as vozes estruturantes que têm garantido a paz social, evitando rupturas e fracturas. E que têm atenuado o maior desespero de todos: a fome.

Aqui não me refiro, evidentemente, às vozes teatrais, visitas programadas, palavras circunstanciais, tudo muito calculado mas inconsequente. Refiro-me a atitudes concretas, gestos, trabalho sistemático e diário, esforço, tempo, dedicação.

 

Portanto, só podemos aqui considerar como verdadeiramente estruturantes, as seguintes vozes:

 

- a sociedade civil: é aqui que a dinâmica da solidariedade se tem expandido mais, em inúmeras iniciativas (associações e organizações, grupos de voluntários, etc.), no apoio aos mais vulneráveis (sem-abrigo, pobres, novos-pobres, crianças, idosos, portadores de deficiência, etc.) nas mais variadas áreas (abrigo, refeições, agasalhos, saúde, companhia, etc.); não esquecer também iniciativas concretas de alguns municípios, tendo sido a mais recente e mediática a de Rui Rio, que irá manter as cantinas de algumas escolas abertas nas férias do Natal, com a possibilidade de vir a repetir a iniciativa nas seguintes (se isto não foi uma estalada sonora, daquelas dos filmes do John Wayne, no governo e nos representantes ao mais alto nível do país que andam a adiar a intervenção do FMI, o que foi?);

 

- a Igreja: também tem tido um papel fundamental, em estreita colaboração com a sociedade civil. Além de alertar para a consciência cristã, tem garantido, através das Misericórdias, muito do apoio atrás referido. Intervenção activa indispensável para evitar as tais fracturas, rupturas e desespero das populações mais carenciadas. A resposta do governo socialista tem sido a dos tais cortes orçamentais, e não apenas nas Misericórdias mas nos estabelecimentos de ensino (a falta de visão deste governo socialista chega a ser histórica). Recentemente, vendo-se na iminência de ter de fechar algumas valências por falta de recursos, a Igreja tem apelado à solidariedade cristã e, concretamente, à partilha da própria mensalidade dos padres (outra estalada sonora à John Wayne no governo socialista e nos representantes ao mais alto nível do país que andam a adiar a intervenção do FMI);

 

- o CDS: o único partido com assento parlamentar que tem apresentado sistematicamente medidas alternativas eficazes, que permitam crescimento económico e emprego (política fiscal, incentivos às pequenas e médias empresas), que defendam as áreas-chave da economia do país (agricultura, pescas, etc.), que protejam os mais desfavorecidos (actualização das pensões de reforma mais baixas, manter o abono de família, etc.), que permitam um equilíbrio social e a coesão social.

 

Porque não considerei o PSD? Será preciso apresentar aqui as razões? Estão todas à vista e ainda bem, sim, ainda bem, que o povinho teve a possibilidade de ver com os seus próprios olhinhos a verdadeira e inequívoca natureza do PSD que, por "patriotismo" aceitou os PECs e este OE 2011 miserabilistas e imorais, nem se preocupando com a redução drástica da despesa estatal. Finalmente, ficou visível a sua cultura corporativa. Bom proveito.

O BE? Que recentemente votou pelo TGV, o tal investimento público para reanimar a economia? E que promove greves gerais que só reforçam a cultura corporativa? Já repararam que o BE podia ser resumido nesta frase: "muita conversa, poucos resultados?"

O PCP: idem aspas aspas.

 

São, pois, estas as vozes estruturantes: a sociedade civil, a Igreja e o CDS.

 

Podem perguntar-me: e o Presidente? Não tem sido uma voz que promove a unidade, a estabilidade e a coesão social? Palavras circunstanciais, tudo muito calculado mas inconsequente, não iniciativas concretas e gestos inequívocos, reveladores de uma consciência social.

 

Aceite a desilusão de ter perdido um país para sempre - o "país antigo" dos valores comunitários e da cultura da amabilidade -, ainda assim posso sonhar com um país "regenerado" ou "restaurado".

Não adiro, pois, ao conformismo generalizado de que não há uma possibilidade, uma única, de ver um Presidente que seja uma voz estruturante.

 

Aqui defini o perfil ideal de Presidente da República e procurei perceber porque é que a direita ficou sem Presidente.

Reparem bem neste perfil, procurem melhorá-lo, pode faltar lá alguma qualidade que terei esquecido. Uma liderança que garanta estabilidade, mas que saiba antecipar e não apenas reagir, que tenha uma visão de país preparado para os desafios do séc. XXI.

Quem se aproxima mais deste perfil?

Reparem também num simples pormenor: a experiência presidencial do candidato não é a condição mais importante. Tendo o perfil adequado, aprenderá depressa. Além disso, tem os Conselheiros e todo um staff protocolar. Mais importante é o perfil adequado.

 

Aqui também analisei as diversas candidaturas:

~ o fenómeno irrepetível Alegre-2006, que foi um equívoco;

- a candidatura de Fernando Nobre, que nasceu também de um equívoco (um desafio de um ex-Presidente que não quis ver Alegre brilhar, como se isso se fosse repetir), mas que pode vir a tornar-se no novo fenómeno, nesta fase em que a pobreza se tornou visível e urgente;

- e uma recandidatura já anunciada, festejada e glorificada (com a aprovação do miserabilista OE 2011 e o adiamento da intervenção do FMI), antes mesmo das eleições presidenciais em finais de Janeiro. É esta a dimensão da soberba e do paternalismo da cultura corporativa.

 

Clarificação deste post a 2 de Outubro de 2015: Quando releio este tipo de posts por mim escritos há anos, fico completamente arrepiada. Será possível que eu tenha pensado assim? Vozes estruturantes?

A Igreja já não é a do D. Eurico Dias Nogueira nem a do D. Manuel Martins dos anos 90. Graças a Deus há o Papa.

O CDS nunca foi democrata nem cristão.

E não votei no Presidente que a direita escolheu.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:16

A cultura democrática

Quinta-feira, 20.05.10

 

Foi ao lembrar uma das minhas lines preferidas de filmes, Na minha vida não há lugar para a mentira (Michelle Pfeiffer), n' A Casa da Rússia, que me surgiu esta ideia: o papel da verdade na cultura democrática. No filme, diversas personagens vêem-se envolvidas na lógica das corporações, da política, da espionagem. É-lhes subtraída a possibilidade de respirar à vontade e de simplesmente viver as suas vidas de forma tranquila. É-lhes por pouco subtraído o direito de viver, como aconteceu ao cientista amigo da nossa heroína. Sean Connery dirá que foi a sua escolha mais fácil, optar por salvar a vida da amada e da família, agiu segundo a sua bússula interior e saltou fora da lógica corporativa que não lhes dizia respeito.

 

Estamos numa fase em que ainda é possível saltar fora da lógica corporativa e escolher a cultura democrática. Mas tal não se verificará por muito tempo, porque o sistema tem formas de se defender e de se perpetuar. As vidas simples das pessoas comuns são-lhe indiferentes. Por isso não lhes dizem a verdade. Mas quem opta por lhes dizer a verdade, ganha confiança e credibilidade, assim como ganham as pessoas comuns. A cultura democrática é a civilização do amor de que fala o Papa Bento XVI. A cultura corporativa é uma nova barbárie, sem alma nem coração, sem vida lá dentro, só destruição, é a lei do mais forte contra o mais fraco.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 14:02

A nossa verdadeira riqueza

Quarta-feira, 13.01.10

 

Continuando esta análise do país e de como recuperar a nossa identidade e dignidade:

Como referi, a primeira qualidade de ser rico é a autonomia: poder organizar as nossas vidas.

Quando me refiro aqui a autonomia refiro-me essencialmente à autonomia dos cidadãos, dentro do possível, e à autonomia da economia, a que cria riqueza. Que neste momento revela poucos sinais de vida.

Sem dúvida que negociámos parte da nossa autonomia, a começar pela económica, com a integração europeia. Mas há inegáveis vantagens nessa interdependência. Não apenas económicas (se houver inteligência para isso), mas sobretudo políticas.

 

A nossa verdadeira riqueza está na capacidade de criar e expandir. E noutra capacidade, tantas vezes esquecida: capacidade de empatia, de relacionamentos saudáveis e estáveis, de relações de confiança.

Aplicada ao país, a confiança adquire uma outra dimensão: sem relações de confiança, de expectativas concretizáveis, de lealdade, de equilíbrio,  a economia estará seriamente comprometida. A base da economia saudável está na coesão social, na confiança.

Confiança nas instituições, nas empresas, nos elementos-chave de uma sociedade. Sem essa condição básica não há economia que sobreviva.

 

E sobretudo a base, o essencial: a energia vital. O brilhozinho nos olhos, o entusiasmo, I'm alive. Ontem, no Boston Legal, a personagem Alan Shore ficou arrumado quando uma ex-namorada por ele abandonada, lhe diz, cheia de ressentimento: Os homens quando envelhecem perdem a paixão... Os teus olhos estão mortiços... Alan Shore só recupera desta frase mortífera quando, em conversa com o amigo, Denny Crane, que também com ele partilha o seu maior pavor (vejam a série se quiserem saber) o ouve dizer com amizade: Ela ainda não te viu em tribunal, aí tu transformas-te! Não, tu não perdeste a paixão! E, de facto, o nosso Alan Shore transfigura-se, é com verdadeira paixão que defende a queixosa e será com tristeza que se despede no final da ex-namorada e é tristeza que verá nos seus olhos também, e já não ressentimento.

 

Isto para dizer o quê? Que além da confiança mútua, nos grupos, nas comunidades, nas instituições, a nossa maior riqueza é a paixão, essa energia vital que nos move, que nos anima. É, por isso, muito preocupante, ler em jornais ou em blogues sobre a geração perdida. Perdida? Não podemos aceitar tal hipótese, que o nosso maior trunfo, os recursos humanos, as pessoas, não consigam vislumbrar uma vida à medida dos seus investimentos pessoais ou dos seus sonhos. Que tenham de encarar um dia a dia medíocre e sem perspectivas. Se as gerações actualmente no poder estão a empatar-lhes a vida, isso terá de ser encarado sem rodeios: o que se passou aqui e o que se passa para isto acontecer?

A minha perspectiva é um pouco polémica, mas terei a oportunidade de verificar se, na prática, se aproxima ou não da nossa realidade. Procurarei, em próximos posts, analisar a situação das gerações dos 26-35 e dos 36-45 anos. Conto com o feedback de todos os que se interessam pelo assunto, claro!, a começar pelos próprios.

 

 

Leitura relacionada: De Sobre o Tempo que Passa, um post sobre o desafio de "viver em comum" para além da aventura individual: Sete pedacinhos de mais além em domingo de chuva.

 

E ainda: Como lixar o Cidadão Comum, e o país, legalmente, isto é, com as leis que temos - 3 e Os cidadãos enquanto contribuintes, consumidores e eleitores. E a tag novas gerações igualmente no Vozes Dissonantes.

 

E ainda: Do Portugal Contemporâneo, Perdendo o sonho e Empregos mal remunerados; e do Minoria Ruidosa, Da geração rasca à geração perdida.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:47








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